Quatro poemas

Marcus Groza 

Poça d’água 

tinha um rosto conhecido 

lembrava antes nesta rua 

uma outra prostituta 

eu ainda não ressecava tão rápido 

não havia tantas esquinas 

e a água não vinha se acumulando 

assim como um palácio 

agora os olhares de todas 

são muito parecidos 

essa uma se chamava 

os homens a chamavam Bel Prazer 

tinha um hálito de álcool 

e um medo terrível de pássaros 

Bel Prazer veio lavar em mim 

a ferida uma noite 

deixou um resto de sangue 

aqui dentro 

pingou também 

cachaça da boca com batom 

aqui dentro 

fiquei embriagada dela 

deitada nadando nua 

aqui dentro 

acenando entre as algas 

que crescem lá no fundo 

Bel Prazer tinha uma terra doce 

que soltava das feridas 

em noites de lua 

suas entranhas se abriam 

mesmo sem tombos ou surras 

Estanque 

tenía un rostro conocido 

recordaba antes en esta calle 

otra prostituta 

yo aún no me secaba tan rápido 

no había tantas esquinas 

y el agua no se iba acumulando 

así como un palacio 

ahora las miradas de todas 

son muy parecidas 

aquella se llamaba 

los hombres la llamaban Voluntad 

tenía un aliento de alcohol 

y un miedo terrible a los pájaros 

Voluntad vino a lavarse en mí 

la herida una noche 

dejó un resto de sangre 

aquí dentro 

goteó también 

aguardiente de la boca con pintalabios 

aquí dentro 

me quedé embriagada de ella 

acostada nadando desnuda 

aquí dentro 

haciendo señas entre las algas 

que crecen allí en el fondo 

Voluntad tenía una tierra dulce 

que soltaba heridas 

en noches de luna 

sus entrañas se abrían 

aun sin vacilaciones ni peleas 

Cantar e ganir 

a cabeça balança 

para dizer sim 

diferente é a boca 

que se escancara 

sorri como quem 

esconjura o medo 

no feitio da velha 

que agora escorraça 

com uma vassoura 

o cão na esquina 

ganir como esse cão 

cantar e ganir 

nas guerras perdidas 

em que lutamos 

sem esperança 

nem heroísmo 

cantar e ganir 

o rejunte de restos 

o chão marcado 

com algoritmos 

e garranchos 

de alguns meninos 

que devassam o mundo 

com seu cambalear perdido 

cantar e ganir 

com a fé das estátuas 

que se amaldiçoam 

entre escombros 

e deturpam o que Deus 

chamou de ternura 

cantar e ganir 

contra as piruetas ortodoxas 

contra a quiromancia das lojas 

no atacado e no varejo 

cantar e ganir 

a felação bem-feita 

e o sabor das tâmaras 

que vêm da Tunísia 

Cantar y aullar 

la cabeza se balancea 

para decir sí 

diferente es la boca 

que se abre de par en par 

sonríe como quien 

conjura el miedo 

a la manera de la anciana 

que ahora espanta 

con una escoba 

al perro en la esquina 

aullar como ese perro 

cantar y aullar 

en las guerras perdidas 

que luchamos 

sin esperanza 

ni heroísmo 

cantar y aullar 

la lechada de restos 

el perro marcado 

con algoritmos 

y garabatos 

de algunos gatos 

que invaden al mundo 

con su bamboleo vagabundo 

cantar y aullar 

con la fe de las estatuas 

que se maldicen 

entre escombros 

y tergiversan lo que Dios 

llamó ternura 

cantar y aullar 

contra las piruetas ortodoxas 

contra la quiromancia de las tiendas 

de mayoreo y menudeo 

cantar y aullar 

la felación placentera 

y el sabor de los dátiles 

que vienen de Túnez 

Miçanga de espasmos 

bêbados na sacada de um prédio em Montevideo 

você desconhecida 

me disse que gostava de amontoar 

pedras quentes sobre os chakras 

tatear a vastidão calcária 

com uma glândula salivar desregulada para mais 

lamber 

com tapetes de água 

ex-corpo 

mel sem membrana 

gagueira antipedras 

miçanga de espasmos 

lâminas de apagar fogaréu 

até quando conseguimos 

sincronizar músculos e nervos do rosto 

reconstituir a fala 

e então pude 

ouvi-la pronunciando 

ce ri mo ni al men te: 

vem comigo 

se você não se recusa 

a ver que todo afago se atravessa 

de um roçar bruto 

que todo amor é um ofício atroz de peritos desastrados 

vem comigo 

se você não se recusa 

a ver que coisas como acupuntura 

foram inventadas por aqueles 

que conhecem mil e uma 

técnicas de apedrejamento 

Ganga de espasmos 

borrachos en el balcón de un edificio en Montevideo 

tú desconocida 

me dijiste que querías colocar 

piedras calientes sobre los chacras 

tantear la vastedad de la caliza 

con una glándula salival paranormal para más 

lamer 

con tapetes de agua 

extracorpóreo 

miel sin membrana 

tartamudeo antipiedras 

ganga de espasmos 

hojas para apagar fogatas 

hasta cuando conseguimos 

sincronizar músculos y nervios del rostro 

reconstituir el habla 

y entonces pude 

escucharla pronunciando 

ce re mo ni al men te: 

ven conmigo 

si no te niegas 

a ver que toda caricia se atraviesa 

con un roce bruto 

que todo amor es un oficio atroz de peritos descuidados 

ven conmigo 

si no te niegas 

a ver qué cosas como la acupuntura 

fueron inventas por aquellos 

que conocen mil y una 

técnicas de exageración 

Autópsia 

pequenas feridas na palma da mão delicada 

os cadarços desamarrados dos tornozelos 

escavaram buracos no chão como vermes afoitos 

dois trapos ressecados no bolso com saliva e sangue 

os pelos loiros chamuscados de incêndios 

treze desejos que todos decifram na face paralisada 

muletas de vidro sustentando o seu vulto 

26 marcas dos meus dentes nas coxas 

a virilha gravada a ferro com reticências 

esquinas esquecidas debaixo da língua por precaução 

no peito o desenho das estradas que devastou 

Autopsia 

pequeñas heridas en la palma de la mano delicada 

los cordones desamarrados de los tobillos 

excavaron agujeros en el piso como gusanos intrépidos 

dos trapos resecos en el bolso con saliva y sangre 

los pelos rubios chamuscados por incendios 

trece deseos que todos descifran en la faz paralizada 

muletas de vidrio apoyando su bulto 

26 marcas de mis dientes en los muslos 

la ingle marcada a fierro con reticencia 

esquinas olvidadas debajo de la lengua por precaución 

en el pecho el diseño de las escaleras que destruyó 

Poemas traducidos del portugués al español por Andrés Guzmán Díaz. 

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